Por que gostamos tanto de queijo no inverno?

As respostas mais comuns provavelmente vão mencionar que com queijo se faz uma variedade imensa de comidas que aquecem.  De fato, pratos que se comem bem quentes acolhem o queijo muito bem.

Ele esquenta e amolece, derrete, tosta, gratina, frita e é gostoso de qualquer jeito. Enriquece e dá sabor a alimentos mais básicos, simples e fáceis de preparar como o arroz, a massa ou uma simples batata cozida.

Quase qualquer coisa vai bem ou fica melhor com queijo e é raro o prato de inverno onde ele não aparece como ingrediente importante.

Outras respostas também frequentes vão na linha das fortes e deliciosas harmonizações de queijos com bebidas de inverno, especialmente os vinhos.

De fato, é comum ouvir pessoas dizerem que poderiam viver de queijo, pão e vinho. E poderiam mesmo, assim como seus antepassados.

O queijo está na vida do homem há pelo menos 6000 anos. O pão e o vinho também. Esses três alimentos vão tão bem juntos porque são consumidos como um trio desde que o Homem deixou de andar de um lugar para outro, sempre em busca de alimento, para se fixar e iniciar a produção de alimentos localmente.

De fato, quando o homem se fixou e passou a obter mais alimentos do que podia consumir, teve tempo de notar que a natureza poderia ajudá-lo a transformar para poder guardar o excedente. O calor do sol, as leveduras naturais do ar, a umidade das cavernas e as brasas das fogueiras passaram a ser notados e usados para transformar o leite em queijo, a uva em vinho e os grãos em pão.

Enfim, comemos e gostamos de queijo há muito tempo. E como a prática leva à perfeição, dominamos hoje uma infinidade de processos, leveduras e fungos que nos permitem ter uma infinidade de tipos de queijos maravilhosos.

Mas nem o hábito de milhares de anos nem a busca constante do sabor são os únicos motivos de nosso consumo voraz de queijo no inverno.

O verdadeiro motivo está na sabedoria de nosso corpo.

Quando o inverno chega, o corpo “se lembra” de quando precisava de muita energia para sobreviver ao frio em situações relativamente desprotegidas. E sabe que a gordura é a forma mais potente e eficiente de absorver energia para manter a temperatura do corpo, além de ser uma maneira muito eficaz de guardar energia. Ocorre que as gorduras encontradas no queijo são naturais e de alta qualidade. De fato, as gorduras saturadas de alta qualidade e as gorduras omega-3 presentes no queijo fazem bem para a saúde.

Os gregos, franceses e alemães, que comem muito mais queijo do que os americanos têm taxas muito menores de hipertensão e obesidade.

Além disso, as gorduras são UM tipo de nutriente em uma constelação única de muitos outros nutrientes importantes para a saúde: proteínas de alta qualidade e aminoácidos; minerais, incluindo cálcio, zinco, fósforo, vitaminas A, D, B2 (riboflavina) e B12; vitamina K2; e ácido linoléico conjugado, um combatente ao câncer e reforço poderoso do metabolismo.

Portanto, à medida que a temperatura esfrie, proteja-se com muito queijo! De diferentes tipos, com diferentes cargas de gordura.

Queijos gordurosos e queijos mais leves têm níveis muito semelhantes de cálcio e proteínas. Portanto, vale consumir de forma variada, expondo seu corpo aos benefícios dos diferentes tipos de queijo, que incluem milhões de bactérias naturais que ​​podem ajudar a prevenir a hipertensão arterial e o colesterol. Da mesma forma, a variedade possibilitará o consumo de diferentes cargas de lactose.  Queijos de cabra e queijos maturados têm menos lactose do que queijos frescos de vaca, por exemplo.

E para terminar, vou lhe dar mais uma razão pra gostar tanto de queijo no inverno: o queijo faz a gente se sentir feliz!

Ele contém um aminoácido chamado tirosina que nos faz sentir satisfeitos.  Junto com as gorduras do queijo, que produzem dopamina, a tirosina é uma substância química natural que instala “centros de recompensa” em nossos cérebros. Ela pode melhorar o humor, aumentar a concentração e dar mais energia ao organismo.

Mas antes do ponto final é bom lembrar da regra: tudo com moderação e qualidade.

Queijo artesanal de alta qualidade pode custar mais do que outro com o mesmo nome, processado, mas você vai comer menos, aproveitar mais, e ele vai fazer muito bem a você.

Os alimentos naturais têm um sabor muito melhor do que os altamente processados e, por serem mais completos, aumentam a saciedade.

A combinação de proteína e gordura, por exemplo, é incrivelmente saciante e ajuda a controlar o apetite durante muitas horas. Quando consumimos alimentos reais, não há motivo para medo ou preocupação. Isso inclui queijos gordurosos, desde que sejam artesanais. A lista de benefícios nutricionais que mencionei não se aplica aos produtos altamente processados e transformados, aos queijos plásticos embalados com conservantes e produtos químicos.

Estou falando de queijo natural que aquece o corpo, o coração e mantém a gente no rumo sábio de nossos antepassados.

Sobre Heloisa Collins

Heloisa CollinsÁvida pesquisadora e uma expert em queijos de cabra, a mestre-queijeira Heloisa Collins desenvolve receitas com acentos de várias nacionalidades e traz aos brasileiros diferentes expressões da cultura de comer queijo de cabra pelo mundo. Desde que decidiu dedicar-se à criação e ao desenvolvimento de derivados de leite, há mais de 20 anos, Heloisa testou os mais variados fermentos, mofos e receitas, até chegar aos 12 queijos finos que hoje compõe o portfólio do Capril do Bosque.

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