Especial: Conheça os produtores premiados na frança

Já destacamos aqui sobre os mineiros que faturaram premiações na França, durante o Concurso “Global de Queijos e Produtos Lácteos” (em francês, Mondial du Fromage et des Produits Laitiers), realizado em Tours. O evento reuniu mais de 700 produtores de 20 países. No total, 11 produtores dessa deliciosa iguaria produzida em Minas Gerais foram premiadas neste Mundial.

O Portal do Queijo conversou com cada um deles para saber um pouco sobre sua história de vida, a produção e o que pretendem fazer após a importante premiação. Confira!

Marly Leite

Marly Leite, moradora da pequena Sacramento, no Alto Paranaíba, na Região de Araxá, foi a grande vencedora do concurso, com a medalha de ouro. O Queijo Minas Artesanal – QMA produzido junto de seu marido, Joel Urias Leite, na Fazenda Caxambu, ganhou o prêmio Super Ouro.

A produção da Fazenda Caxambu começou em 1992, mas, passou por um pequeno intervalo, quando o casal começou a comprar e revender o produto. Contudo, essa mudança no negócio não deu muito certo e, por isso, eles voltaram a produzir seus próprios produtos e os cadastraram no Instituto Mineiro de Agropecuária – IMA, o que profissionalizou ainda mais o negócio.

Até o dia do Mundial de Fromage, o queijo feito na propriedade de Marly era vendido apenas em Sacramento e em São Paulo. Agora, após o prêmio mundial, sua produção já ganhou mercados por todo o Brasil. “A nossa qualidade sempre foi boa. Em concursos, a gente sempre ganhava. Mas, este alcance mundial, eu acredito que deve-se à técnica de maturação que aplicamos, uma técnica diferenciada da que a gente já conhecia até então”, explica Marly. Ela diz que, com seis dias após a produção, define qual será a maturação aplicada no queijo, de acordo com o tipo de fungo presente no redondo. Segundo a produtora, antigamente, retiravam o mofo da peça para depois seguir com a maturação. Após cursos profissionalizantes, aprenderam a cultivar estes fungos, o que foi fundamental para o novo sabor premiado. Marly Leite já tem planos e muitas demandas de exportação, mas consterna-se ao lembrar que não tem previsão de quando poderá abastecer o mercado internacional, pois depende muito da legislação e burocracia brasileiras.

Vencedores da região da Serra da Canastra
Na tradicional Serra da Canastra, três queijos levaram medalha de prata para a casa: o da fazenda Sítio Caju, localizada no Vale da Gurita, em Delfinópolis; o produzido por Reinaldo de Faria Costa, no município de Vargem Bonita; e o Capela Velha, de São Roque de Minas.

“Minha fazenda fica encravada no meio do Vale da Gurita, em Delfinópolis, na frente do Rio Babilônia, num lugar com muito mato e uma natureza forte e um paredão de serra na frente”, explica o produtor Arnaldo Ribeiro, que, pela primeira vez na vida, participou de um concurso de queijos, a convite Associação dos Produtores de Queijo Canastra – Aprocan.

Arnaldo Ribeiro

Na fazenda Sítio Caju, Ribeiro recebe a ajuda de Zeca e Dona Wanderlice na produção do queijo, agora consagrado com a premiação internacional de Tours. “Esse prêmio mostra que os produtores da Canastra têm condições de participar do comércio do Brasil e do mundo com queijos da maior qualidade, um orgulho muito grande para nós. Basta algumas adequações nas fazendas”, defende confiante o produtor Arnaldo.

Reinaldo Faria

Segundo Lívio Múcio de Souza, técnico da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais – Emater-MG, Reinaldo de Faria Costa, produtor de QMA no município de Vargem Bonita, da região da Canastra, também já venceu muitos concursos regionais promovidos pela Emater-MG e, em 2016, conquistou o quinto lugar no Concurso Estadual. A Emater-MG e o IMA, estão orientando-o para a certificação com o selo do Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal – Sisbi, o que possibilitará a venda de seu produtos em outros estados do Brasil. Na Fazenda capivara, também no município de Vargem Bonita, Reinaldo Faria produz queijos há 27 e já conquistou cinco vezes o primeiro lugar Municipal na sua cidade.   Em 2016, ganhou primeiro lugar regional e o  quinto estadual e agora o da França.  “Meu  queijo é clássico da canastra casca amarela ouro extremamente bem acabado, de massa macia e sabor suave.  Eu e Vinícius, meu filho, trabalhamos juntos”, conta. Reinaldo comercializa seus queijos em todo o Brasil.

Os irmãos Guilherme e Alexandre Silva

Já Alexandre Pereira Silva, produtor do Queijo Capela Velha, ganhador do prêmio do Mundial de Fromage, na categoria prata, é também presidente do Sindicato Rural de São Roque de Minas. O convite para a participação do concurso veio em uma missão feita pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais – Faemg, em parceria com a ONG SerTãoBras, com a Aprocan e com o já citado Sindicato.

Mais de seis gerações da família de Alexandre fizeram do Queijo Minas Artesanal o sustento na propriedade familiar, que fica a 3 km do centro do município, na região da Serra da Canastra. Contudo, ele e seu irmão e sócio,  Guilherme Henrique Silva, começaram a maturá-los apenas em janeiro deste ano.

O Queijo Capela Velha é meia-cura, maturado por 22 dias em média, macio e com pouco sal. E este sabor já ganhou os mercados de várias regiões de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

“O que a gente espera, além da valorização de nosso produto, é um maior apoio do governo em pesquisas e em eventos e que a gente possa estar andando em conjunto com a fiscalização para crescer cada dia mais”, frisa Alexandre.

Três pratas e um bronze para o Serro
Três Queijos Minas Artesanais produzidos na região do Serro receberam medalhas de prata no Mondial du Fromage: o Queijo Kankrej, criado há três meses pelo produtor Túlio Madureira; outro maturado com casca lavada e um terceiro maturado com casca ácaros. Estes dois últimos vencedores citados foram curados na França, pelo mestre curador francês Jean-François Dubois (Lafinarde).

Estes exemplares foram selecionados entre 54 opções do Serro, levadas pela jornalista Débora Pereira, da ONG SerTãoBrás.

Carlos Dumont – representou a Cooperativa do Serro

Além disso, o Queijo Gir, também produzido por Madureira, conquistou uma medalha de bronze. Túlio Madureira, faz parte da 5ª geração da família Madureira, tradicional produtora de queijo na região do Serro; está à frente da produção há 15 anos; e nunca tinha participado de um concurso de queijos antes. O nome Queijo Gir é devido à raça bovina que produz o leite utilizado na massa do queijo, o gado Gir. Segundo ele, o terroir da região e das pastagens de sua fazenda, do queijo bem selvagem, foi o grande diferencial garantidor dos dois primeiros prêmios no Mundial.

Túlio Madureira

Os redondos feitos pelas mãos de Madureira são vendidos em diversas lojas pelo Brasil: na Roça Capital, no Mercado Central de Belo Horizonte; em uma queijaria da Galeria do Queijo, em São Paulo; na loja Produtos D.O.C., no Rio de Janeiro; na Origens do Sabor, em Brasília; e diretamente nas páginas oficiais de sua produção no Facebook e Instagram.

Perguntado sobre a previsão de exportação de seu produto, Túlio é taxativo e consonante com o restante dos produtores. “Exportação, sim, se o governo realmente abrir os olhos para isso. Já temos até pedidos: na França, mesmo, tiveram boutiques interessadas em comercializar os queijos nossos. Mas, infelizmente, ainda nós não estamos legalmente preparados para isso”, pontuou.

Bronze para Campos das Vertentes
Bronze no Mondial du Fromage, Lúcia Maria Resende é produtora do queijo Sabores do Sítio, em Tiradentes, na Região de Campos das Vertentes. Segundo ela, seu produto “tem a característica bem mais suave, textura macia, todo feito com leite do rebanho do gado Jersey”.

Lúcia Maria

“No ano passado, conquistamos nosso primeiro prêmio: o primeiro lugar em um concurso estadual em Minas. E, neste ano, em nossa primeira participação em um concurso mundial, conseguimos trazer a medalha de Bronze”, comemora. Atualmente, 80% da produção do Sabores do Sítio é vendida na Feirinha da Estação do Trem, em Tiradentes, mas o produto também tem destino certo em paladares de Barbacena e Belo Horizonte.

Redondos do Sul de Minas também se destacam

Luiz Sergio e Alberto Medeiros – queijos Cruzília

Feitos fora das tradicionais regiões produtoras de Queijo Minas Artesanal, os queijos Santo Casamenteiro, produzido pela marca Queijos Cruzília, e o d’Alagoa, da produção de Osvaldo Martins de Barros Filho, trouxeram prata e bronze respectivamente para o Sul do Estado de Minas Gerais.

O mundial francês foi o primeiro concurso internacional do qual Osvaldo participou. Contudo, o pequeno produtor artesanal é um colecionador de prêmios nacionais. “Nossa peça pequena ganhou “O Melhor Queijo de Alagoa”, em 2014; e o Faixa Dourada foi medalha de Prata, no Prêmio Queijos Brasil. Em 2016, tornou a receber medalha de Prata. O Queijo do Coronel também foi medalha de Prata,  no Queijos Brasil 2016,  e TOP 5, pela Revista O Globo”, celebra entusiasmado.

Osvaldo Filho

Segundo ele, o diferencial que garantiu seu bronze no mundial foi o “tremruá”. “Tremruá é a mineiralização da palavra francesa terroir”, explica Barros Filho, e traduz a influência das peculiaridades resultantes da relação entre o solo e o micro-clima de Alagoa, em Minas Gerais, na vitória do queijo no prêmio.

Osvaldo afirma ser pioneiro na venda de queijo pela internet desde 2009 e essa ideia de empreendedorismo inovador lhe rendeu destaque no “Prêmio José da Costa”, promovido pela Fundação Dom Cabral e pelo jornal Diário do Comércio, no qual ganhou o troféu Araújo Modesto, na categoria Comércio.

E as boas notícias não param por aí, não! As vendas online de Osvaldo estão atraindo turistas para Alagoa, o que foi reconhecido pelo recebimento do Prêmio MG Turismo. “Hoje, tenho a loja física no Centro da cidade, que é um ponto turístico, e continuo com a loja virtual. Temos revenda em Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia e em algumas cidades do Nordeste, como São Luiz, no Maranhão, Aracaju, em Sergipe, e Salvador, na Bahia”, conta.

O sucesso, no entanto, não fez o pequeno produtor esquecer-se de suas origens. Muito pelo contrário, o faz, cada vez mais, orgulhar-se da trajetória familiar que seu negócio representa. “Sou bisneto de tropeiro. Meu bisavô, Jeremias Sene, transportava queijos dentro de balaios de bambu no lombo do burro, vencia as montanhas da Mantiqueira por trilhas e vendia o queijo no Vale do Paraíba, em São Paulo, e, às vezes, no estado do Rio de Janeiro. Meu avô era pecuarista e meu pai nasceu na casa de fazenda, no Prateado”, explica.

O carinho de Osvaldo com o queijo é expressa até na forma como lida com o seu pequeno rebanho: “a primeira coisa que fiz foi comprar 3 vacas: Alagoa, Paris e França. A França pariu um bezerro, Bronze. Paris pariu uma fêmea: Sertãobras. E Alagoa pariu um bezerro: Gradicido!”.

 

Fotos: Flávio Amaral/Sistema FAEMG

Sobre Ícaro Batista

Ícaro BatistaBlogueiro desde 2010 e jornalista desde 2016, atualmente é fundador e editor-chefe de um site homônimo de novidades da economia criativa. Também é titular da Coluna Cool, do site Culturaliza BH, na qual escreve as últimas novidades e tendências culturais e criativas de BH.

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