Da história da Polenghi, iniciada em 1947, à integração das marcas Quatá e Glória, companhia amplia seu portfólio no país e aposta na valorização dos queijos especiais, na inovação e na democratização do consumo
A história da indústria brasileira de queijos é marcada por empresas que conseguiram transformar tradição, conhecimento técnico e capacidade de inovação em produtos presentes no cotidiano de milhões de consumidores. Uma dessas trajetórias é a da Savencia Brasil, operação de um dos grandes grupos internacionais do setor de queijos e laticínios, que reúne marcas históricas, especialidades queijeiras e soluções voltadas tanto ao varejo quanto ao mercado profissional.
Com raízes na Polenghi, fundada em 1947 no interior paulista, a empresa atravessou diferentes fases da indústria de alimentos, ampliou sua atuação e incorporou marcas com identidades e públicos distintos. Mais recentemente, a integração das marcas Quatá e Glória fortaleceu sua presença no mercado nacional, ampliando a diversidade de produtos e a capilaridade da operação brasileira.
Em entrevista exclusiva ao Portal do Queijo, Augusto Lemos, CEO da Savencia Brasil, apresenta a trajetória da companhia, explica a estratégia por trás de seu portfólio, detalha os investimentos em inovação e compartilha a visão da empresa sobre o futuro do mercado brasileiro de queijos.
A proposta, segundo o executivo, é combinar a experiência internacional do grupo com a compreensão dos hábitos, dos sabores e das particularidades do consumidor brasileiro.
Uma história que começa em 1947
A origem da Savencia Brasil remonta a 1947, quando imigrantes italianos fundaram a Polenghi em Angatuba, no interior de São Paulo. A empresa iniciou suas atividades fabricando queijos inspirados na tradição italiana, entre eles provolone, ricota fresca e muçarela.
O empreendimento nasceu em um período no qual a indústria nacional de laticínios ainda ampliava sua capacidade produtiva e diversificava a oferta de derivados do leite. Ao longo das décadas seguintes, a Polenghi construiu uma trajetória própria, marcada pelo desenvolvimento de produtos que conquistaram espaço no mercado brasileiro.
Um dos capítulos mais importantes ocorreu em 1955, com o lançamento do Polenguinho. O produto tornou-se uma referência no segmento de queijos processados em porções individuais, associando praticidade, conveniência e consumo familiar.
A mudança estrutural veio em 1977, quando a operação foi adquirida pelo grupo francês Soparind Bongrain, atual Savencia Fromage & Dairy. A partir daí, a empresa passou a integrar uma organização internacional especializada em queijos e produtos lácteos, ampliando suas possibilidades de desenvolvimento, investimento e acesso a conhecimentos técnicos.
A expansão do portfólio brasileiro ganhou força nos anos seguintes. Em 1987, a companhia incorporou a marca Skandia, associada aos queijos de mofo azul. Em 1988, foi a vez da Campo Lindo, marca de origem mineira voltada às especialidades queijeiras.
Em 1998, a empresa lançou Frescatino, direcionada ao segmento de queijos frescos. Já em 2019, introduziu no país a marca internacional Ile de France, aproximando o consumidor brasileiro de especialidades ligadas à tradição francesa.
Outro movimento relevante aconteceu em 2023, com a estruturação da unidade Polenghi Profissional, dedicada ao atendimento de estabelecimentos e operadores do mercado de alimentação fora do lar.
A trajetória ganhou um novo capítulo com a incorporação da Quatá Alimentos e de suas marcas, incluindo a Glória. A aquisição foi concluída em março de 2026, após as aprovações regulatórias necessárias, ampliando a presença da Savencia no setor brasileiro de queijos e lácteos.
Para Augusto Lemos, a evolução da companhia representa a combinação entre o conhecimento acumulado ao longo de décadas e a capacidade de acompanhar as transformações do mercado.
“Hoje, somos a Savencia Brasil, uma operação que une o saber-fazer do grupo francês e a diversidade do terroir brasileiro”, destaca o executivo.
Um grupo global com estratégia voltada ao mercado brasileiro
A Savencia integra um grupo multinacional francês, familiar e independente, com presença em 120 países. De acordo com as informações apresentadas por Augusto Lemos, o grupo ocupa a quinta posição entre os maiores produtores de queijos do mundo e a décima terceira entre os grupos de laticínios.
Nesse contexto, o Brasil representa uma operação estratégica, considerada um dos motores de crescimento do grupo na América Latina.
A atuação nacional está organizada em dois grandes mercados: varejo e food service. O primeiro reúne produtos destinados ao consumo doméstico, desde itens cotidianos até queijos especiais para ocasiões gastronômicas. O segundo atende profissionais e empresas que precisam de ingredientes e soluções para preparar alimentos em escala comercial.
A estratégia também busca consolidar uma identidade corporativa capaz de integrar diferentes marcas sem eliminar suas características individuais.
A missão institucional da empresa é resumida na expressão “Empreender para alimentar bem as pessoas”. Na prática, a companhia procura traduzir esse propósito em produtos que atendam a diferentes necessidades, ocasiões de consumo e faixas de mercado.
A integração da Quatá e da Glória amplia esse alcance. Além de incorporar marcas conhecidas dos consumidores, o movimento agrega uma presença regional importante e um portfólio complementar de queijos e outros derivados lácteos.
O resultado é uma operação que combina especialidades de maior valor agregado com produtos destinados à alimentação cotidiana, aproximando diferentes segmentos do mercado sob uma mesma estrutura empresarial.
Um portfólio que vai do consumo diário à alta gastronomia
A diversidade é uma das características centrais da Savencia Brasil. Segundo Augusto Lemos, o portfólio reúne mais de 100 produtos, distribuídos entre queijos, produtos lácteos e soluções para diferentes ocasiões de consumo.
A companhia organiza sua atuação principalmente em duas categorias: Dia a Dia e Queijos Finos.
A categoria Dia a Dia representa uma parcela importante do volume e da capilaridade da operação. Seu objetivo é oferecer produtos para a rotina das famílias brasileiras, combinando qualidade, conveniência, nutrição e versatilidade culinária.
A Polenghi ocupa espaço relevante nesse segmento, com produtos como requeijão, cream cheese e queijos fatiados. A marca também trabalha para ampliar as possibilidades de utilização de seus produtos em receitas e combinações que dialoguem com os hábitos nacionais.
O Polenguinho mantém sua proposta de lanche prático, com porções individuais e versões desenvolvidas para atender a diferentes necessidades de consumo. A marca também passou por atualizações de portfólio e comunicação para acompanhar as transformações do público.
A Frescatino está associada aos queijos frescos e à busca por opções leves, enquanto Quatá e Glória ampliam a presença da companhia em categorias tradicionais da alimentação brasileira.
Entre os produtos do portfólio estão queijo coalho, cream cheese, creme de leite, creme de ricota, leite condensado, leite UHT, molhos para lanches, muçarela, queijo prato, queijo minas frescal, minas padrão, queijos fatiados e requeijão.
Essa variedade permite à companhia atuar em diferentes ocasiões, do café da manhã ao preparo de refeições, passando por lanches e receitas familiares.
Queijos finos: especialidades, identidade e experiência
A segunda grande categoria é a de Queijos Finos, direcionada à gastronomia, às ocasiões especiais e aos consumidores interessados em explorar diferentes perfis sensoriais.
Nesse segmento, a Campo Lindo valoriza sua ligação com as especialidades mineiras e com a tradição de produção de queijos finos no Brasil. A marca busca aproximar o público de produtos que combinam conhecimento técnico, características sensoriais e possibilidades de preparo.
Já a Ile de France apresenta referências da tradição queijeira francesa, com destaque para queijos de mofo branco e de cabra.
O portfólio de especialidades inclui Brie e Camembert, além de variedades duras e semiduras, como Parmesão, Gouda, Gruyère, Suíço e Emmental. A empresa também atua com queijos de mofo azul, como Gorgonzola, e produtos para fondue.
A proposta é ampliar as ocasiões de consumo e estimular a descoberta de novos sabores, aromas, texturas e combinações.
Para a Savencia, o desenvolvimento dessa categoria não depende apenas de disponibilizar produtos diferenciados nas prateleiras. Também envolve apresentar informações que ajudem o consumidor a entender cada queijo, reconhecer suas características e descobrir como aproveitá-lo melhor.
Campo Lindo e a valorização das especialidades mineiras
A presença da Campo Lindo no portfólio tem um significado particular para o setor queijeiro brasileiro por sua ligação com o Sul de Minas Gerais e com a produção de queijos especiais.
A unidade de São Vicente de Minas é dedicada à fabricação de queijos finos da marca. Segundo Augusto Lemos, a empresa trabalha com uma estrutura produtiva que procura respeitar a vocação regional e as características tecnológicas de cada categoria.
Um dos diferenciais mencionados pelo executivo é a captação de leite fresco de produtores localizados em um raio máximo de 70 quilômetros da unidade. A proximidade favorece o controle da matéria-prima e permite trabalhar com uma cadeia de fornecimento regional.
Essa relação entre território, matéria-prima e conhecimento produtivo é especialmente relevante para os queijos finos, cujas características dependem de fatores como composição do leite, tecnologia de fabricação, controle do processo e condições de maturação, quando aplicável.
A estratégia também dialoga com um movimento mais amplo de valorização da origem e da identidade dos alimentos. Para o consumidor, conhecer melhor o produto e suas particularidades pode transformar a compra de um queijo em uma experiência gastronômica mais completa.
A proposta da Savencia é preservar a identidade da Campo Lindo e, ao mesmo tempo, desenvolver formatos que facilitem a inclusão desses produtos na rotina dos brasileiros.
A estrutura industrial combina tradição e especialização
A operação industrial da Savencia Brasil foi organizada para atender às necessidades específicas de suas diferentes categorias.
A fábrica de Angatuba, em São Paulo, ocupa lugar histórico nessa estrutura. É apresentada pela empresa como um centro de excelência em tecnologia de queijos fundidos e requeijão, além de ser o berço da companhia no Brasil e a unidade associada à história do Polenguinho.
No Sul de Minas Gerais, a unidade de São Vicente de Minas concentra a produção de queijos finos da Campo Lindo, com fornecimento de leite de produtores próximos.
Essa distribuição das atividades permite que cada unidade desenvolva competências específicas, respeitando as exigências de fabricação e os objetivos de cada categoria.
A combinação entre instalações industriais, conhecimento técnico e fornecedores regionais é parte da estratégia para manter a qualidade dos produtos em um portfólio diversificado.
Embora a empresa não tenha apresentado, nas respostas encaminhadas ao Portal do Queijo, números consolidados de capacidade industrial ou volume anual de produção, as informações fornecidas mostram uma operação estruturada para atender tanto produtos de grande circulação quanto especialidades queijeiras.
O desafio de aproximar o consumidor dos queijos finos
Um dos pontos mais interessantes da entrevista é a análise que Augusto Lemos faz do mercado brasileiro de queijos especiais.
Na avaliação apresentada pelo executivo, o segmento reúne uma oportunidade significativa de crescimento, mas ainda enfrenta barreiras relacionadas ao conhecimento dos consumidores, à frequência de compra e à percepção de preço.
Com base em dados de mercado atribuídos a Scanntech e Kantar, a empresa estima que o setor de queijos finos movimenta aproximadamente R$ 1,9 bilhão, embora represente apenas 7% do volume total de queijos.
A entrevista também cita levantamentos segundo os quais 58% dos consumidores consomem queijos finos menos de uma vez por mês e 45% desconhecem diferenças relacionadas à maturação ou às formas de preparo.
Os números ajudam a explicar por que a empresa considera a educação do consumidor uma frente estratégica. Para a Savencia, existe espaço para ampliar o consumo não apenas por meio do lançamento de novos produtos, mas também oferecendo informações que tornem essas especialidades mais acessíveis e compreensíveis.
A Campo Lindo trabalha com embalagens que apresentam informações sobre o perfil sensorial dos queijos e orientações de preparo. A intenção é ajudar o consumidor a escolher o produto e compreender como servi-lo ou utilizá-lo em receitas.
A Polenghi, por sua vez, desenvolve conteúdos nas redes sociais com sugestões de harmonização e formas de incorporar queijos a diferentes refeições.
Essa abordagem busca romper a ideia de que os queijos finos pertencem exclusivamente a restaurantes sofisticados, degustações especializadas ou ocasiões muito específicas.
Ao apresentar possibilidades de consumo mais simples, a companhia procura mostrar que um queijo especial também pode fazer parte de encontros em família, refeições cotidianas e preparações feitas em casa.
Para o setor queijeiro como um todo, essa estratégia toca em um tema importante: quanto mais o consumidor conhece os produtos, suas características e suas possibilidades gastronômicas, maiores são as oportunidades de diversificação do consumo.
Inovação que acompanha novos hábitos
Na Savencia Brasil, a inovação é apresentada como um dos pilares do crescimento. A estratégia envolve tanto o desenvolvimento de novos produtos quanto a atualização de marcas consolidadas e a criação de formatos adequados a diferentes ocasiões.
Um dos exemplos é o Brie Fornin, da Campo Lindo, desenvolvido para o preparo no forno e na Airfryer. O produto procura facilitar o consumo de um queijo tradicionalmente associado a ocasiões especiais, oferecendo uma alternativa prática para servir em reuniões, encontros e momentos de compartilhamento.
A proposta combina uma especialidade queijeira com uma tendência contemporânea: a busca por soluções culinárias que exijam menos etapas de preparo e possam ser incorporadas à rotina doméstica.
Outro lançamento destacado pelo executivo é o Requeijonne, da Polenghi, que combina o requeijão brasileiro com queijos de tradição italiana. A iniciativa procura agregar novas possibilidades de sabor a uma categoria familiar para o consumidor nacional.
A companhia também menciona o Creme de Ricota Tradicional, da Polenghi, como parte de seus movimentos de renovação do portfólio.
Na Quatá, o destaque é o Queijo Coalho Pop Cheese, desenvolvido para atender à demanda por produtos voltados ao consumo como snack. O lançamento amplia as possibilidades de utilização de um queijo bastante associado à culinária brasileira, especialmente ao preparo na grelha e em espetos.
Os exemplos mostram como a inovação pode assumir diferentes formas: facilitar o preparo, combinar referências culinárias, explorar novos formatos de consumo ou renovar produtos tradicionais sem perder sua identidade.
O que esperar dos próximos lançamentos
Segundo Augusto Lemos, a Frescatino prepara um novo produto com apelo proteico, previsto para chegar às gôndolas até o final do ano. O executivo também informou que o Polenguinho prepara o lançamento de um novo produto.
O movimento, contudo, sinaliza a intenção de continuar explorando tendências relacionadas à conveniência, à composição nutricional e à diversificação das ocasiões de consumo.
Pensar globalmente e falar localmente
A presença de marcas internacionais no portfólio não significa, necessariamente, reproduzir no Brasil os mesmos hábitos de consumo de outros países.
De acordo com Augusto Lemos, a orientação da companhia é “Pensamos globalmente, falamos localmente”.
A ideia é aproveitar a experiência internacional do grupo sem ignorar a criatividade culinária, a diversidade regional e as preferências dos consumidores brasileiros.
O executivo cita o planejamento da Polenghi para 2026, centrado no conceito “República Brasiliana”, como exemplo dessa abordagem. A proposta parte do reconhecimento de que o brasileiro costuma combinar sabores e texturas e adaptar ingredientes a preparações próprias.
Em vez de estabelecer regras rígidas sobre como cada queijo deve ser consumido, a comunicação incentiva novas combinações: queijos com doces típicos, utilização em comidas de rua e incorporação a receitas populares.
O Polenguinho também exemplifica essa adaptação, com uma trajetória construída em torno da praticidade e de sua presença na rotina familiar.
Esse diálogo entre referências globais e hábitos locais é importante em um país de dimensões continentais, no qual a alimentação apresenta diferenças regionais significativas.
Para a indústria, compreender essas particularidades pode ajudar a desenvolver produtos e formas de comunicação mais próximas das necessidades reais dos consumidores.
Food service: soluções para quem transforma ingredientes em experiências
Além do varejo, a Savencia Brasil mantém atuação voltada ao mercado profissional por meio da Polenghi Profissional.
A unidade atende às necessidades de estabelecimentos que utilizam queijos e produtos lácteos na preparação de alimentos, incluindo restaurantes, hotéis, padarias e outros operadores do setor de alimentação fora do lar.
Nesse segmento, os critérios de escolha vão além do sabor. Os profissionais precisam considerar rendimento, padronização, facilidade de aplicação, desempenho durante o preparo e consistência entre diferentes lotes.
Por isso, segundo o executivo, a companhia trabalha com produtos desenvolvidos para oferecer desempenho e produtividade, além de estabelecer uma relação consultiva com chefs e operadores.
A proposta é apoiar os profissionais na elaboração de receitas e na organização de suas operações, contribuindo para que consigam manter padrões de qualidade em diferentes contextos de produção.
O food service também tem um papel estratégico para a indústria porque funciona como ambiente de experimentação de ingredientes, combinações e técnicas que podem influenciar os hábitos de consumo fora do estabelecimento.
Na visão apresentada pela Savencia, tendências que ganham espaço nas cozinhas profissionais podem posteriormente inspirar novas aplicações e oportunidades no varejo.
A atuação junto a esses clientes, portanto, não se limita à venda de produtos. Também envolve compreender as necessidades de quem trabalha diariamente com alimentos e oferecer soluções compatíveis com as exigências do negócio.
Sustentabilidade e responsabilidade na cadeia do leite
A agenda de sustentabilidade da Savencia Brasil está associada ao conceito de empreendedorismo responsável e ao manifesto Positive Food, que orienta iniciativas relacionadas à alimentação, às pessoas e ao meio ambiente.
Segundo as informações apresentadas por Augusto Lemos, a companhia trabalha com metas ambientais que incluem a redução de emissões de gases de efeito estufa, a diminuição do consumo de água e a melhoria da destinação das embalagens.
Entre os compromissos ambientais informados na entrevista estão:
- Reduzir em 27,5% as emissões de CO₂.
- Diminuir em 10% o consumo de água por tonelada fabricada.
- Avançar para que 100% das embalagens sejam recicláveis ou biodegradáveis.
A empresa também afirma que busca assegurar a auditoria de 100% de sua produção de leite em relação às Boas Práticas Sustentáveis e ao Bem-Estar Animal.
A relação com os fornecedores é uma parte importante dessa agenda. A produção de queijos depende diretamente da qualidade da matéria-prima e da regularidade do abastecimento, de modo que o desenvolvimento da cadeia leiteira tem implicações tanto produtivas quanto ambientais.
Na dimensão social, a entrevista destaca a participação feminina em posições de liderança: segundo o executivo, 47% dos cargos de liderança no Brasil são ocupados por mulheres.
Os compromissos apresentados demonstram que a sustentabilidade é tratada pela companhia como uma questão que envolve diferentes etapas da operação, da produção de leite à fabricação, passando pelas embalagens e pela gestão de pessoas.
A efetividade dessas iniciativas depende do acompanhamento dos indicadores, da evolução dos processos e da capacidade de envolver fornecedores, colaboradores e parceiros em objetivos comuns.
Os desafios da indústria brasileira de queijos
Ao analisar o cenário nacional, Augusto Lemos aponta a fragmentação e a comoditização do mercado como desafios importantes para a indústria láctea.
Em categorias nas quais há pouca diferenciação percebida entre os produtos, o preço tende a exercer influência significativa na decisão de compra. Isso pressiona os fabricantes a conciliar competitividade, qualidade e eficiência operacional.
O desafio é especialmente relevante nos segmentos de consumo cotidiano, nos quais a escala e a presença no ponto de venda têm grande importância.
Na avaliação da Savencia, entretanto, o mercado brasileiro também oferece oportunidades expressivas de expansão.
A entrevista cita estimativas de consumo anual per capita de queijos no Brasil que variam entre 2,2 kg e 5,6 kg, em comparação com aproximadamente 17 kg nos Estados Unidos e 25 kg na França. Como os resultados podem variar conforme a metodologia e as categorias consideradas, esses números devem ser entendidos como referências apresentadas pela empresa, e não como uma única série estatística diretamente comparável.
A leitura estratégica da companhia é que ainda existe espaço para ampliar o consumo e diversificar as escolhas dos brasileiros.
Uma das apostas é a chamada “premiumização acessível”: desenvolver produtos que ofereçam atributos percebidos de valor, como qualidade, tecnologia, apresentação e desempenho, mantendo preços compatíveis com as possibilidades do mercado.
Essa estratégia procura superar a oposição entre produtos acessíveis e produtos diferenciados. Em vez de limitar a inovação a nichos de alto preço, a proposta é levar melhorias e novas experiências a um público mais amplo.
A educação do consumidor completa esse raciocínio. Explicar as características de um produto, mostrar aplicações culinárias e comunicar seus diferenciais pode contribuir para que a decisão de compra considere outros fatores além do preço.
Para os fabricantes, o desafio é transformar esses atributos em benefícios que sejam reconhecidos pelo consumidor e sustentados por uma execução consistente ao longo da cadeia.
Uma nova fase para a Savencia Brasil
A integração das marcas Quatá e Glória marca uma etapa importante na evolução da operação brasileira. Ao reunir empresas e marcas com trajetórias distintas, a Savencia amplia sua presença em categorias tradicionais e reforça sua capacidade de atender a diferentes públicos e canais de venda.
Ao mesmo tempo, a companhia mantém uma estratégia de diferenciação baseada em especialidades queijeiras, inovação e valorização das características de cada marca.
O desafio será conciliar a escala de uma operação ampliada com a preservação das identidades construídas ao longo de décadas, mantendo a qualidade dos produtos e acompanhando as mudanças nos hábitos de consumo.
Para o mercado brasileiro de queijos, a atuação de grupos industriais com portfólios diversificados também evidencia a importância de conectar produção, tecnologia, distribuição e educação do consumidor.
A ampliação do consumo de queijos especiais, o desenvolvimento de novas aplicações culinárias e a valorização da matéria-prima são oportunidades que envolvem toda a cadeia produtiva — dos produtores de leite aos fabricantes, distribuidores, queijistas, chefs e consumidores.
A trajetória da Savencia Brasil mostra como uma história iniciada com a produção de queijos inspirados na tradição italiana pode evoluir para uma operação que combina referências internacionais, marcas brasileiras consolidadas e especialidades de diferentes origens.
Ao olhar para o futuro, a empresa aposta na combinação entre tradição e inovação, na diversificação do portfólio e na aproximação com o consumidor. A perspectiva é ampliar as ocasiões de consumo e contribuir para que os queijos, em toda a sua diversidade, conquistem cada vez mais espaço na alimentação dos brasileiros.

